Quiosque do Mirandinha

Aqui, em primeiríssima segunda mão, os melhores momentos da turma do Mirandinha, publicados desde que a Praia foi aberta à visitação pública. Só fica de olho porque, além de roubar a cena, o Mirandinha ainda rouba na conta. Então, aproveita a retrospectiva. Não precisa segurar o riso. Já a carteira...



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janeiro 14, 2004

O MIRANDINHA E A MÁQUINA DO ORGASMO FEMININO

(Publicado em 09/12/03)
O Mirandinha, enquanto prepara o polvo com brócolis que o Dudi pediu, me chama num canto, ar de confidência ebulindo feito lombriga em barriga vazia:
-- Chegado. Saca a tal máquina de orgasmo feminino? Aquela, que os cientistas descobriram acidentalmente e que agora resolveram vender?
Eu, originalidade pura:
-- Descobrir o orgasmo acidentalmente não seria mirar o xis da questão e acertar o ponto gê?
Mas o Mirandinha não tá nem aí pra piada alfabética. Em pleno ardor confessional, prossegue:
-- Seguinte, chegado. Liguei pro televendas e pedi um pra patroa, já que ela diz que na matéria aí eu sou igual ao nariz do Michael Jackson: não dou nem pro cheiro.
-- Interessante a comparação. E aí?
-- No dia seguinte chegou. Pra você ver como esse povo é célebre.
-- Célere.
-- Tou acelerando, chegado. Já chego lá. Abri a porta, tava o entregador de macacão, com o embrulho na mão. Então, pra não deixar a patroa sem graça, resolvi sair e deixar o rapaz explicar tudo pra ela, a sós. Mas eu não nasci ontem: corri pra janela e fiquei vendo tudo escondido, claro. A patroa perguntou se a máquina tava naquele embrulho. O entregador falou que não, aquilo era um reator de luminária, porque ele fazia duplo expediente pruma loja de material elétrico e pro pessoal do laboratório de orgasmo feminino. A patroa então perguntou onde tava a tal máquina. O carinha riu, apontou pra ele mesmo e disse "Tá aqui...". Então tirou o macacão -- e por baixo tava de smoking, chegado! Beijou a mão da patroa, disse que ela tava linda, perguntou se ela tinha cortado o cabelo, elogiou, correu pra cozinha, preparou um peixe à dorê, abriu um vinho, sentou com ela na mesa, serviu o peixe e o vinho, voltou a beijar a mão dela, pediu pra ela falar da vida dela, disse que ela era encantadora e, no fim, contou que o sonho da vida dele era os dois verem o sol se pôr, da janela do quarto. Então foram pro quarto, lógico. Depois de uma hora e meia eles saíram, o cidadão foi embora -- e a patroa tá lá, até agora, com um risinho na cara. E eu aqui, encafifado, claro.
Eu:
-- É. O cara é uma máquina mesmo. Mas o que te encafifou?
-- É que enquanto eles tavam lá dentro, dei a volta e vi que a janela do quarto ficou fechada o tempo inteiro, chegado! Como é que conseguiram ver o pôr-do-sol?!?

Saio de cena pra ir servir o polvo do Dudi e fico pensando em como os recursos científicos pra satisfação feminina ficaram high-tech. Tudo bem que a patroa do Mirandinha é que não anda nada hi-fi.

postado por Nelson Moraes 10:03 AM

O ULISSES E O COCO DO ARY

(Publicado em 10/11/03)
Reparo no Ulisses, contador aqui da Praia e arguto observador das efemérides circunvizinhas (não me olhem assim; o título foi ele que se deu), olhando por uns bons vinte minutos o coqueiral que abunda aqui na Praia (não me olhem assim; a frase saiu desse jeito mesmo):
-- Mermão, vejo esses coqueiros e me lembro de que agora, no centenário do Ary Barroso, vão pipocar ensaios e resenhas começando com "Apesar do pleonasmo do 'coqueiro que dá coco', Aquarela do Brasil ainda é um marco blablablá..."
Não falei da argúcia do rapaz? Mando:
-- É fato.
Ele:
-- E o pior é que isso nunca foi um pleonasmo!
-- Não?
-- De modo algum! Basta ler o verso umas três vezes, com calma (experimenta) que a ficha cai: dá pra ver que não tem redundância nenhuma! Tem é licença poética. Dispensa inclusive as gracinhas do tipo "Ué, ele queria que coqueiro desse banana?" O que o Ary fez foi reiterar que nossos coqueiros são prolíficos, generosos: além de fornecer sombra e ornamentar o litoral, ainda por cima dão coco! Entendeu?

Ele fala isso e sai rumo ao quiosque, provavelmente deixando o idílio contemplativo-musical e voltando à dura realidade dos números do caixa da Praia, que nunca batem. Concluo que os contadores, mesmo trazendo a matemática no sangue, também têm veia de poeta. Acho que concordo com a constatação dele e corro pra água, tentando pegar jacaré nessas ondas que ondeiam.

postado por Nelson Moraes 10:00 AM

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