agosto 24, 2004
Após longo e tenebroso inferno
Após singrar os oito mares*, qual Ulisses** regressando a Ítaca, encontro o Mirandinha tocando o quiosque com a eficiência de sempre. Pelo menos as moscas não andam reclamando do atendimento. E, após os cumprimentos de praxe:
- Mirandinha, que história é essa da Fal vir dizer que você acabou com ela?
- Ah, chegado, é que eu fiz a lista das penduras do condomínio Brasil aqui no quiosque pela ordem alfabética. Comecei com o Matusca e acabei com ela. Foi isso.
- Ordem alfabética... começando pelo Matusca e terminando com a Fal? E a seqüência das letras?
- Pois então, chefia. O Matusca quis pagar com letras de câmbio e a Fal com letras do tesouro. Nâo dá seqüência alfabética?
É, dá. Penso em perguntar se a patroa dele não resolveu acabar com ele mas, na iminência de um "Ah, chegado, sou eu que acabo com ela, todas as noites!", volto a embarcar. Içar velas, direção de barlavento. Fui.
(*)Sim, há o mar de dívidas do quiosque.
(**) Não, não é o cunhado do Mirandinha. De repente é. Ah, quer saber, é ele mesmo.
abril 14, 2004
MUDANÇAS, MUDANÇAS!
O Mirandinha, assoberbado pelas obras no template (estréia um novo, logo, logo - com o auxílio luxuoso do Bruno Azevedo e do big boss Fábio The Man), chega-se ao Ulisses e:
- Ué, chegado. Esse papo de mudança é sério mesmo?
O Ulisses, que perde o cunhado mas não perde o chiste:
- Claro, Mirandinha. Aqui tudo vai mudar. Vou passar a registrar lucros no caixa do quiosque, você vai passar a ser um intelectual, tua sogra vai deixar de ser respondona e sua mulher passará a um modelo de virtude.
- Ué, chegado. Só a patroa é que não vai mudar, então?
E o Ulisses, entregando os pontos:
- Não. Ela vai continuar do mesmo jeito. Por baixo.
Diz que o Mirandinha saiu desesperado atrás de Prozac pra patroa. E as obras seguem. Aguarde, leitor. E isto não é uma ameaça.
março 12, 2004
Mirandinha e o Bombeiro
Faço uma visita rápida ao quiosque, pra ver como a coisa anda se saindo sob a administração mirandística, e encontro o titular com a vó atrás do toco.
-- O que houve, nobre preclaro?
-- A patroa – ele resmunga.
Eu poderia dizer “De novo?”, ou “Foi você quem pediu”, ou “O que você tá fazendo ainda com ela?”, ou “O que ela tá fazendo ainda com você?” Mas digo:
-- O que houve?
-- Ué, chegado. Neste Carnaval ela inventou uma história de barriga e ainda passou a noite com um bombeiro!
-- Peraí – digo, imaginando se já não tou sob o estupefaciente efeito da banana daikiri que ele me preparou. – Esse caso aí não aconteceu foi com a Luma?
-- Sei lá, chegado. Sei que ela mandou chamar um bombeiro-encanador pra consertar a pia do banheiro, que eu nem sabia que tava estragada. No que ele entrou no banheiro a patroa se queixou de uma dor de barriga, se trancou lá também e só foram sair no dia seguinte. Ele contente por conta da gorjeta. E ela feliz porque tinha sarado da dor.
-- Ué. Então por que essa sua aí cara de marisco azedado?
-- Porque quem pagou a gorjeta fui eu!!
É. Cada uma tem o Eike Batista que merece. Volto pro navio que eu ganho mais.
(Ah, e em breve mudo a cara deste template aqui, pra ficar à altura dos demais condôminos do BlogBrasil)
março 2, 2004
Mirandinha, Ulisses e o Blogbrasil
Então o Mirandinha chega pro Ulisses e:
-- Chegado, já deste uma sacada na vizinhança do quiosque? O Matusca e a Helô! Tudo bem que a areia aqui tem tudo a ver com as pirâmides do véio, mas a Helô? Que surpresa - não sabia que dava banana em Praia!
O Ulisses suspira, pensa "Não é banana que dá em Praia, Mirandinha -- é a tua patroa", mas só diz:
-- É.
E la nave va.
fevereiro 20, 2004
O ULISSES E O PRÊMIO NOBEL
(Publicado em 03/02/04)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha, contador aqui da Praia e observador arguto do environment sócio-político, ataca:
-- Ué, mermão. Depois que eu li que tão cogitando aí de dar o Nobel da Paz pro Blair e pro Bush, não vou me espantar nadinha de ver o Nobel de Esconde-esconde ir pro Saddam, o de Gastronomia praquele alemão papa-pinto, o de Pedagogia pro Michael Jackson e o de Fidelidade ser dividido entre a cúpula do PT e a patroa do Mirandinha!
Obtempero:
-- Ué, vai ver o Nobel do Bush e do Blair é merecido: não custa eles terem achado mesmo as armas químicas e só estarem esperando a hora certa pra exibir as brutas.
-- Era o que eu ia dizer, mermão: se eles derem conta de provar que elas existem vão merecer justamente é o Nobel de Química! Não?
Hoje o homem tá impossível. Se exibisse essa presteza de raciocínio na contabilidade aqui da Praia eu não estaria precisando hipotecar o Quiosque, o Blog de Bolso e o Palimpsesto. Enfim.
fevereiro 3, 2004
ULISSES, MIRANDINHA E O INCIDENTE DIPLOMÁTICO
(Publicado em 08/01/04)
Passo pelo quiosque, em plena letargia litorânea, e ouço o Ulisses, contador aqui da Praia, tecendo com o Mirandinha edificantes discussões acerca das últimas novidades do panorama político-internacional. O Ulisses comenta, mostrando o jornal:
-- Pois é, Mirandinha. Por retaliação, os brasileiros tão obrigando os americanos que chegam aqui a tocar piano, no aeroporto.
Eu, ainda absorto com a quebra das ondas nas pedras (ou é a quebra da contabilidade da Praia, no caixa do quiosque; não lembro bem), paro pra apreciar a obtemperação do Mirandinha -- que vem de imediato:
-- Ué, quer dizer que quando escocês pintar no aeroporto aqui vai ter que tocar gaita de fole? Russo vai tocar balalaica? Africano vai tocar djembé? Espanhol vai bater castanhola? Indiano vai tocar cítara? Com esse guéri-guéri todo a pista do aeroporto vai virar é pista de dança!
O Ulisses, espantado menos pela obtusidade do que pela abrangência da cultura geográfico-musical do outro, indaga:
-- Onde você aprendeu isso tudo?
-- Ahá: vi tudo num especial do Discôveri Chênel, ontem, sobre música no mundo! Comigo é assim, chegado: intelecto marombado todo dia. E a patroa ainda suspirou quando viu o tamanho do trombone de vara de um negão lá de Niu Orlíns!
Volto à arrebentação das ondas, deixando os dois em plena jam session cultural no quiosque. E as autoridades diplomáticas perdendo essa.
janeiro 14, 2004
O MIRANDINHA E A MÁQUINA DO ORGASMO FEMININO
(Publicado em 09/12/03)
O Mirandinha, enquanto prepara o polvo com brócolis que o Dudi pediu, me chama num canto, ar de confidência ebulindo feito lombriga em barriga vazia:
-- Chegado. Saca a tal máquina de orgasmo feminino? Aquela, que os cientistas descobriram acidentalmente e que agora resolveram vender?
Eu, originalidade pura:
-- Descobrir o orgasmo acidentalmente não seria mirar o xis da questão e acertar o ponto gê?
Mas o Mirandinha não tá nem aí pra piada alfabética. Em pleno ardor confessional, prossegue:
-- Seguinte, chegado. Liguei pro televendas e pedi um pra patroa, já que ela diz que na matéria aí eu sou igual ao nariz do Michael Jackson: não dou nem pro cheiro.
-- Interessante a comparação. E aí?
-- No dia seguinte chegou. Pra você ver como esse povo é célebre.
-- Célere.
-- Tou acelerando, chegado. Já chego lá. Abri a porta, tava o entregador de macacão, com o embrulho na mão. Então, pra não deixar a patroa sem graça, resolvi sair e deixar o rapaz explicar tudo pra ela, a sós. Mas eu não nasci ontem: corri pra janela e fiquei vendo tudo escondido, claro. A patroa perguntou se a máquina tava naquele embrulho. O entregador falou que não, aquilo era um reator de luminária, porque ele fazia duplo expediente pruma loja de material elétrico e pro pessoal do laboratório de orgasmo feminino. A patroa então perguntou onde tava a tal máquina. O carinha riu, apontou pra ele mesmo e disse "Tá aqui...". Então tirou o macacão -- e por baixo tava de smoking, chegado! Beijou a mão da patroa, disse que ela tava linda, perguntou se ela tinha cortado o cabelo, elogiou, correu pra cozinha, preparou um peixe à dorê, abriu um vinho, sentou com ela na mesa, serviu o peixe e o vinho, voltou a beijar a mão dela, pediu pra ela falar da vida dela, disse que ela era encantadora e, no fim, contou que o sonho da vida dele era os dois verem o sol se pôr, da janela do quarto. Então foram pro quarto, lógico. Depois de uma hora e meia eles saíram, o cidadão foi embora -- e a patroa tá lá, até agora, com um risinho na cara. E eu aqui, encafifado, claro.
Eu:
-- É. O cara é uma máquina mesmo. Mas o que te encafifou?
-- É que enquanto eles tavam lá dentro, dei a volta e vi que a janela do quarto ficou fechada o tempo inteiro, chegado! Como é que conseguiram ver o pôr-do-sol?!?
Saio de cena pra ir servir o polvo do Dudi e fico pensando em como os recursos científicos pra satisfação feminina ficaram high-tech. Tudo bem que a patroa do Mirandinha é que não anda nada hi-fi.
O ULISSES E O COCO DO ARY
(Publicado em 10/11/03)
Reparo no Ulisses, contador aqui da Praia e arguto observador das efemérides circunvizinhas (não me olhem assim; o título foi ele que se deu), olhando por uns bons vinte minutos o coqueiral que abunda aqui na Praia (não me olhem assim; a frase saiu desse jeito mesmo):
-- Mermão, vejo esses coqueiros e me lembro de que agora, no centenário do Ary Barroso, vão pipocar ensaios e resenhas começando com "Apesar do pleonasmo do 'coqueiro que dá coco', Aquarela do Brasil ainda é um marco blablablá..."
Não falei da argúcia do rapaz? Mando:
-- É fato.
Ele:
-- E o pior é que isso nunca foi um pleonasmo!
-- Não?
-- De modo algum! Basta ler o verso umas três vezes, com calma (experimenta) que a ficha cai: dá pra ver que não tem redundância nenhuma! Tem é licença poética. Dispensa inclusive as gracinhas do tipo "Ué, ele queria que coqueiro desse banana?" O que o Ary fez foi reiterar que nossos coqueiros são prolíficos, generosos: além de fornecer sombra e ornamentar o litoral, ainda por cima dão coco! Entendeu?
Ele fala isso e sai rumo ao quiosque, provavelmente deixando o idílio contemplativo-musical e voltando à dura realidade dos números do caixa da Praia, que nunca batem. Concluo que os contadores, mesmo trazendo a matemática no sangue, também têm veia de poeta. Acho que concordo com a constatação dele e corro pra água, tentando pegar jacaré nessas ondas que ondeiam.
outubro 14, 2003
MIRANDINHA FILOSÓFICO
(Publicado em 06/10/03)
O aclamado filósofo praiano Olívio de Curvello, morto de ciúmes por conta do presumido affair entre dona Constância e o chef casca-grossa Claude Troglô, resolveu ir à luta. À sua maneira, naturalmente.
Querendo impressionar seu objeto de desejo, deu pra dissertar inflamadamente sobre Filosofia Grega quando ela tá por perto, pra ver se o palavrório impressiona a distinta. O problema é que o público pras preleções dele se resume ao Mirandinha.
Assim, passei próximo à mesa onde os dois se encontravam e peguei mais ou menos algo sobre Platão, a Escola Cínica, os sofistas e os epicuristas. Finda a aula, fui sabatinar o Mirandinha:
- E aí? Aprendeu muito, hoje?
Ele, entusiasmo puro:
- Só se for demais, chegado! Fiquei sabendo que existiu na Grécia um cara chamado Flatão, teve também uma Escola Sarcástica, um monte de surfistas e umas picuinhas. Será que são surfistas daqui da Praia? Eles são tão cuca fresca, não acho que sejam chegados em picuinha, não...
Bom, resumindo: a antiguidade clássica ganhou um filósofo peidorreiro, uma escola que lecionava sarcasmo e um bando de pegadores de jacaré briguentos.
Dona Constância nem notou a verborragia, pra falar a verdade; o Olívio voltou à dor de cotovelo misturada com ginger ale - e, por fim, a Filosofia Grega ganhou um "discípulo", digamos, sui-generis.
Não sei se o mundo ficou melhor.
setembro 2, 2003
O ESPETO DO MATUSCA (?!?)
(Publicado em 23/08/03)
O Mirandinha, que de uns tempos pra cá deu pra prestar uma certa atenção ao noticiário, me interpela, enquanto prepara um espeto de camarão que o Matusca pediu já tem um tempão:
- Chegado, nesse episódio aí de terem jogado uma galinha na Marta Suplicy e do Ministro ter dito que era o mesmo de jogarem um veado num cidadão...
- Sei.
- Se o papai aqui fosse o sujeito em questão - que tipo de bicho o chegado acha que arremessariam em minha pessoa?
Eu, automaticamente:
- Um muar, pois não?
Ele, dando um pulo e quase deixando cair o camarão da chapa:
- Ahá! Tá vendo? E a patroa fazendo pouco de mim! Veio com um papo de que me jogariam um burro!
Eu, querendo ver até onde vai dar:
- Ó injustiça. E por que isso?
- Porque eu tive um clique e disse que, se masturbação evita câncer de próstata, masturbação com camisinha evita o câncer e também a AIDS! Olhaí - a patroa pega pesado, de vez em quando, né não?
Eu podia dizer que ela pega pesado, leve, gordo, magro, o que pintar. Podia também lembrar que a sorte da distinta é que o animal que jogariam nela seria um certo peixe que não dá nas águas salgadas aqui da Praia. Mas analisando friamente a situação, vejo que a moçoila tá coberta de motivos pra socializar o ouriço.
E o camarão do Matusca lá, quase tostando.
agosto 20, 2003
TEMPLATE NOVO
(Publicado em 04/08/03)
O Mirandinha, enquanto prepara um espetinho de camarão e gela uma Skol pra espantar a segundona aziaga, me cerca:
- Pô, Chegado. Aqui nessa Praia eu sou o último a saber das coisas?
Eu, sem querer levar o papo adiante - e já levando:
- Não entendi.
- Corre um zum-zum-zum aí de que o chegado vai mudar o template da Praia, mexer no layout?
- É. Pra comemorar um ano do point. E pra não entediar os praianos. E mais não posso dizer, por enquanto.
Ele, agora cochichando:
- Mas diz aí - os colaboradores freqüentes, do tipo o distinto aqui, ainda têm lugar garantido no pedaço, né não?
- Claro, Mirandinha. Você é motivo de riso pra imensa maioria dos praianos. Ele, lisonjeado:
- Puxa, chegado. Emocionante saber que minha pessoa colabora pra felicidade de quem lê estas linhas. Do tipo o Deepak Alcachofra, né?
Meio que concordo (fazer o quê?) e aí vejo a patroa dele, lépida e fagueira, dirigindo-se às pedras da Praia pra (se é que os praianos me entendem) tomar o sol matinal. E fico pensando: o Mirandinha acha que é só em matéria de template novo que ele é o último a saber das coisas.
MALUF E A SENA
(Publicado em 26/07/03)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha e tesoureiro aqui da Praia, de vez em quando toma uns gorós e recebe um Oliver Stone:
- Mermão, se prepara que o próximo ganhador da Sena vai ser o Maluf!
Eu, querendo ver até onde vai dar:
- E será que ele precisa?
- Vai ouvindo. Ele primeiro superfaturou o túnel Ayrton... Senna! Agora, tava lá em Paris fazendo cambalacho às margens do rio... Sena! Não dá outra - espera pra ver quem ganha a próxima Sena! A fixação do homem é essa: estar sempre em cena!
Como o leitor pode ver, além de receber um Oliver Stone o rapaz fica todo trocadilhista, quando bebe. De qualquer forma a tese faz sentido. Ficam os praianos avisados.
LALAU, O JUIZ DE FORA
(Publicado em 21/07/03)
O Mirandinha, enquanto prepara o polvo cozido com brócolis que eu prometi pro Jean Boechat, me sai com esta:
- Chegado, esse lance da justiça liberar o Lalau pra ir pra casa tem a ver com aquilo de Livre Árbitro, né?
Eu (não sei por que dou corda):
- Você quer dizer Livre Arbítrio.
- Não, chegado. Segue meu raciocínio: todo juiz é um árbitro, certo?
- Procede.
- O Lalau era árbitro, não era?
- Procede.
- Então. Se ele foi pra casa, a justiça cometeu um Livre Árbitro! Ou é Juiz de Fora?
Sou obrigado a jogar a toalha perante esta pérola da dialética mirandista. Mas fico remoendo a vontade de dizer que a patroa dele é que é chegada em ver um juiz de fora. Se é que os praianos me entendem.
ULISSES E O AMERICAN WAY OF LIFE
(Publicado em 15/07/03)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha e tesoureiro aqui da Praia, é arguto e implacável observador da cena nacional. Ele chega e tasca:
- É, mermão. Agora que pegou a moda da garotada nas escolas brazucas copiar aqueles rótulos de filminho americano, se dividindo entre a galera "popular" e a "perdedora", só falta xerocar esse lance da cheerleader namorar o capitão do time e a mania de falar "Minha vida não foi mais a mesma depois daquele verão...".
Concordo e acrescento:
- O pior é que nesses filmes os "populares" são babacas e os nerds sangue bom! Viu como até pra copiar a gente prefere os vilões?
E ele:
- Pois é, mermão. A gente imita a babaquice quando devia copiar era a renda per capita deles!
Aplaudo veementemente e saio de fininho porque o aclamado filósofo Olívio de Curvello não pode ouvir um latim que já vem todo lépido e fagueiro. Sussurro pro Ulisses um Abusus non tollit usum e vou pegar um jacaré.
OLÍVIO DE CURVELLO ENTREVISTA KELLY KEY
(Publicado em 01/07/03)
O aclamado filósofo Olívio de Curvello, ainda se recuperando do desgosto de ver "aquele meu cover abrindo blog para disseminar ao vulgo intelecções minhas como se dele fossem, num gritante atentado deontológico" (palavras dele; a Praia se exime da polêmica), aceitou o convite para entrevistar sua colega livre-pensadora Kelly Key (livre-pensadora porque, nas palavras de Olívio, "com aquele corpo ela está livre de pensar"). A moça chegou à Praia cercada de seguranças, os quais logo se dispersaram graças à exuberância da patroa do Mirandinha (que no quesito sex appeal, comparada à livre-pensadora, nada fica a dever - ao contrário do Mirandinha, que deve a Deus e todo mundo).
A seguir, os trechos mais marcantes do colóquio epistemológico.
Olívio de Curvello: Em nível de superexposição midiática, a seu ver existe o estabelecimento semiótico de sua figura como epítome do furor latino?
Kelly Key: Ah, eu traí o Latino, sim. Problema com frutinha: eu adoro jaca e ele tinha cara de banana.
Olívio de Curvello: Os apelos sensoriais fomentados por suas letras visam ressaltar a anima feminina junguiana ou, antes pelo contrário, remete ao conluio corporal, paroxizando a dicotomia ele-ela?
Kelly Key: Não foi pra Ele Ela que eu posei, não. Foi pra Playboy mesmo. E não adianta perguntar o cachê. Só digo que foi por uma baba, baby.
Olívio de Curvello: "Baba baby, baby baba, baba / Baby baba, olha o que perdeu / Baba, criança cresceu / Bem feito pra você, é /
Agora eu sou mais eu". Nota-se um latente laivo de auto-afirmação na assertiva de que a criança cresceu ou este seria um subtexto referente à hidráulica fálica, grosso modo?
Kelly Key: Grosso? Eu nunca tinha reparado. Aliás, sabe que eu nunca entendi essa letra direito? Tudo a ver, sabe?
Olívio de Curvello: Nos parâmetros do novo zeitgeist, a lascívia seria o leitmotiv programático?
Kelly Key: Programático? Ah, aí eu prefiro o programa do Gugu. O Faustão não deixa a gente cantar, fica falando o tempo inteiro...
Olívio de Curvello: Finda nossa interlocução, seria de sua vontade sair com algum aforismo?
Kelly Key: Ah, eu prefiro sair com surfista. Tem muito músculo pra eu pegar e eles ainda me ouvem. Ou é isso ou não são chegados em falar muito. Falando nisso, aquele moço ali do quiosque tá puxando briga com os meus seguranças só porque eles tão tomando sol com a mulher dele? Por muito menos eu mandei o Latino ir pastar, sabia?
A Praia agradece ao patrocínio dos bronzeadores Sundown, que cuidaram da pele da patroa do Mirandinha, e aos profissionais do Hospital Santa Ifigênia, que cuidaram das dezesseis fraturas do Mirandinha.
DONA CONSTÂNCIA E O C.S.I.
(Publicado em 17/06/03)
Dona Constância, preparando patinha de caranguejo e dando uma de pragmática:
- Meu nego, por que você não desiste dessa bobagem de Blog de Bolso?
Eu, sereno, fingindo que não me abalei:
- Desistir como?
- Ah, meu nego. Ninguém lê aquilo. Vive às moscas. Você não atualiza há muito tempo e o blog é tão simplinho. Não passa de um veículo para o seu pedantismo literário (como se vê, Dona Constância, embora de origem simplória, é mulher lida). Larga dessa ilusão boba, meu nego.
Eu, convicto:
- Dona Constância, já ouviu falar do Jerry Buckheimer?
- Não, meu nego. Quem é? Algum amigo blogueiro seu, com um site bem mais bonitinho e sofisticado?
- Não. É produtor de cinema. Ele é quem faz essas bobajadas aí, tipo Pearl Harbor e Falcão Negro em Perigo. Mas com a grana que consegue nesses filmes ele produz projetos pessoais, como aquela série bacana da TV, o C.S.I. Pois então, dona Constância. O Blog de Bolso é projeto pessoal meu. Com o auê aqui da Praia eu atraio leitores pro Blog de Bolso. Ele é o meu C.S.I.
Ela, cética:
- C.S.I.? Sei não, meu nego. Do jeito que ele anda tá mais é pra U.T.I.
Desisto do embate de idéias. Largo dona Constância falando sozinha e reitero pra mim mesmo meu ideal: jamais desistir do Blog de Bolso. Quixotescamente confrontarei os moinhos de vento do pragmatismo. Não esmorecerei. Ou melhor dizendo, à maneira de Oscar Wilde: lutarei até a primeira gota de sangue!
ULISSES E A SAIA DA IÂNGUI
(Publicado em 14/05/03)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha e tesoureiro aqui da Praia, manda:
- É, mermão, depois que a tal da Fernanda Iângui disse que todo velho é mau-caráter, lá no "Saia Curta", lembrei daquela frase do grande George: "A juventude é uma coisa maravilhosa. Pena ser desperdiçada em jovens..."
Aplaudo com veemência, mas o Mirandinha se interpõe, garboso:
- Ahá. Peguei no pulo! O nome do programa é "Saia Justa", não "Saia Curta", e passa na GNT - canal a cabo que por sinal eu e a patroa acabamos de assinar.
É fato. Entretanto, como o Mirandinha nunca decepciona, ele se vira pra mim e complementa, no cochicho:
- Mas me diz uma coisa, chegado: desde quando o Bush diz coisa com coisa?
Tento explicar que o George em questão é o Bernard Shaw, mas nessa hora o Mirandinha ruma em disparada pra casa: parece que o termo "Saia Curta" lhe pôs uma pulga atrás da orelha, fazendo o cidadão se tocar que a patroa tá sozinha lá, com o moço da TV a cabo.
"SAI DESSA VIDA, MEU NEGO"
(Publicado em 09/04/03)
Dona Constância - sogra do Mirandinha e quituteira de mão cheia -, frita uns bolinhos de camarão no quiosque enquanto repara desalentada o genro se atrapalhando todo com os engradados de cerveja. Ela me chama num canto e, apontando o dito cujo:
- Meu nego, não dava pra esse infeliz estar num emprego melhor?
Armo um veemente protesto - afinal, eu sou o patrão do infeliz - mas ela, apaziguadora, emenda:
- Não, meu nego, seria aqui na Praia mesmo. Mas olha a situação em que ela se encontra... Os blogs dos teus amigos são tão mais bonitos, modernosos, personalizados, cheios daqueles links pra outros blogs, e outros quetais... O teu não podia ser assim também, não?
"Parece minha mãe falando", penso, mas não digo. E explico pra dona Constância que não entendo nada de template, html, design, essas coisas, que eu já peguei o layout pronto no blogger.com.br por ser semi-analfabyte, que até gostaria muito de turbinar o blog, que não me falta querência, mas ciência - essas coisas. Resumindo: fazer o quê, né?... Entretanto, não abro mão da dignidade e estufo o peito:
- Blog simplório, sim - mas honesto!
Ela lança um olhar pro Mirandinha e deixa escapar um "Claro, claro...", não sei se de resignação ou ironia.
GRANDE BISMARCK
(Publicado em 08/04/03)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha e tesoureiro aqui da Praia, manda:
- Mermão, certo mesmo tá é aquele meia que jogou no Vasco: "As maiores mentiras são ditas antes de uma eleição, durante uma guerra e depois de uma caçada..."
Aplaudo, com restrições: o autor da frase não foi o ex-vascaíno Bismarck e sim o notável chanceler alemão Otto Von Bismarck, figura de proa do século XIX.
Mas insisto que a citação é altamente pertinente.
FILÓSOFO NA PRAIA
(Publicado em 03/04/03)
O intelectual Olívio de Curvello, o mais novo freqüentador da Praia, senta-se ao quiosque, pede um Ginger Ale (pensadores de seu jaez não tomam cerva) e dispara:
- O anti-bushismo tem raízes puramente filistéias, engendradas e embaladas no ninho da imprensa soi disant neo-liberal, que asperge seu ignaro querosene em qualquer fagulha de pensar anti-stabilishment e se esbalda no fuzuê hipócrita. Alimentada, por certo, pela máfia pseudoglobalizada que atua nas coxias da ONU e nas entranhas das FARC, do Comunismo Internacional e, last but not least, da cúpula petista. Os moderninhos festeiros que se colocam contra a Guerra no Iraque mostram-se néscios, cinocéfalos, pascácios e burros.
O Mirandinha, indignado, me cochicha:
-Burro não, chegado! Burro eu não sou!
AS SINAPSES DO W. BUSH
(Publicado em 27/03/03)
O Ulisses, cunhado do Mirandinha, que dá as caras de vez em quando na Praia (e que, segundo este, "é portador de um intelecto ligeiramente mais marombado do que o meu, chegado"), me sai com esta:
- Mermão, nessa questão do Iraque, se estiver rolando guerra química, por enquanto é no cérebro do Bush: um neurônio não quer trabalhar e o outro não sabe o que fazer. Dá curto feio nas sinapses.
Aplaudo veementemente, enquanto o Mirandinha me chama num canto e pergunta se sinapse não é resumo de novela.
UM CASO DE PATROCÍNIO
(Publicado em 24/03/03)
Vejo de longe o Mirandinha e o Ulisses no quiosque, acompanhando pela tevê de 12 polegadas as últimas da Guerra. Trabalhar que é bom... Chego junto, o Ulisses espertamente se toca e vai descascar camarão. Mas o Mirandinha permanece com o teofânico ar dos recém-iluminados:
- Chegado, depois de uma análise cuidadosa, descobri que por trás dessa guerra tá rolando o maior patrocínio!
Eu, todo teatral:
- Oooooh, que surpresa! Então suas acuradas leituras da Veja foram proveitosas! Você descobriu que existem interesses bélicos, econômicos e religiosos nos bastidores do conflito! Desse jeito você ainda papa o Prêmio Esso de Jornalismo!
Ele, agora já meio atordoado:
- Me escapa um pouco o raciocínio aí, chegado. Não era bem disso que eu falava.
Suspiro fundo e me preparo:
- Então manda.
- Seguinte. Tou vendo que os jornalistas gringos ficam o tempo inteiro só comparando o visu entre essa guerra e a outra, a do Golfo, certo?
- Confere.
- Em vez de falar de vítimas, eles falam que essa tem mais explosões, mais fogaréu e mais barulho que a outra, tá ligado?
- Confere.
- Ou seja. O Dáblio Bush tá competindo com que o pai dele fez há dez anos... Em vez do Saddam, ele tá guerreando é com o velho dele, confere?
Mediante essa verdadeira reedição dos Diálogos de Platão, cedo. E ele arremata:
- Pois então. Isso de querer competir, eliminar o pai... não é patrocínio?
Não sei bem por quê, mas suspiro aliviado:
- Não. É parricídio. Desejo inconsciente de extingüir a figura paterna. Tem a ver com psicanálise.
Ele, revendo os conceitos:
- Aaaah... Lembrei que o Ulisses aqui uma vez me deu um toque sobre isso. É o Amplexo de Édipo.
Eu já ia armando um "Não, aí tá mais é pra abraço de tamanduá", mas reparo no Ulisses, descascando o camarãozinho dele e me olhando de rabo de olho como quem diz "Deixa quieto, cumpadi..."
MIRANDINHA E JOYCE
(Publicado em 14/03/03)
Tou no quiosque tomando umas cervas com o Quads, o Mau, o Mikhail e o Leãdro - meus sócios no "Prediletos"- quando reparo no Mirandinha, atrás do balcão, compenetrado na leitura de um grosso volume de capa dura. Não resisto:
-Mirandinha, isso passa logo ou quer que eu já chame o médico?
Ele, sem se abalar:
-Imagina, chegado. Marombar o intelecto tá na ordem do dia. Não teve um presidente aí que falou que povo desinibido é povo que lê?
-Sei. E a que leitura você tá aí, entregue?
-Joyce.
Engasgo com a cerveja e, dedo trêmulo, aponto o grosso volume:
-I-i-isso aí...?!?
E ele, batendo de leve na capa do livrão, com o sereno semblante dos auto-suficientes:
-É o do Ulisses.
Sinto o braço esquerdo formigar e vejo tudo em volta escurecer. Meus sócios me acordam com cerveja na cara e uns safanões básicos, pra então me passarem a versão correta - e lúcida - dos fatos: o Mirandinha tava lendo a coluna da Joyce Pascowitch, quando deparou com a palavra "Plutocracia". Correu então ao dicionário - o grosso volume em questão - que ele pegou emprestado do Ulisses, cunhado da patroa dele. Tudo esclarecido, os caras voltam à cerva, eu volto à vida após um pré-enfarte e o Mirandinha, dicionário já fechado, volta à leitura joyceana. Não sem antes comentar:
- Pra você ver, chegado. E eu ainda achei que "plutocracia" fosse cachorrada no Governo. Ou até coisa pior. Mente suja, a minha...
A ASCENDÊNCIA DO MIRANDINHA
(Publicado em 15/02/03)
O Mirandinha, no meio do preparo de um mariscado:
- Chegado, seguinte: no exercício de marombar meu intelecto, tava ontem assistindo o Discôveri e vi falarem num tal de Pico della Mirandola, da Idade Média, e tal.
- Sei - digo.
- Tu sabe se com esse sobrenome ele podia, sei lá, ser meu descendente...?
Eu, paciência infinita:
- Teu ascendente, você quer dizer.
- Não. A patroa já me falou que meu ascendente é Áries.
- E você acredita nisso?
- Claro que não! Depois que li meu perfil astronômico, acho que tou mais é pra Peixes. Uma coisa mais praiana, saca?
Aproveitei que ele tinha esquecido o mote inicial da conversa e me afastei de fininho do quiosque, pra ir bater bola na praia.
agosto 18, 2003
PLÁGIO
(Publicado em 10/02/03)
Aí o Mirandinha pula a mureta do quiosque e me aborda:
-- Escuta, chegado. Saca a coluna do Moacir Japiassu, na revista Imprensa?Eu, meio que fingindo que não é comigo:
-- Mm. Sei.
-- Lembra que ele também tem um bate-pau retórico, o Janistraquis? Que inclusive aborda ele com um "Escuta, considerado"?
Eu, peremptório:
-- Aonde você quer chegar?
-- Já pensou se o Japiassu resolve meter um processo na Praia, por meio-plágio?
Eu, incisivo:
-- Seguinte. Por que você acha que eu te coloquei aqui? Você é o laranja, compadre. The frontman. Se rolar alguma pendenga judicial, é nas tuas costas. Eu nem apareço.
Foi a vez dele fingir que não era com ele. Voltou pro quiosque pra terminar o espetinho de camarão que o Matusca tinha pedido.